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Brasil humilhou Portugal

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image Carlos Queiroz surpreendeu ao escalar um meio-campo demasiado mole

Portugal foi obrigado a ir ao baú de (más) memórias desenterrar esse jogo de 1955, com a Suécia, em que tinha sofrido seis golos pela última vez.

Primeiro as partes, depois o todo. Maicon foi melhor que Bosingwa, Gilberto superou Maniche, Anderson arrasou Tiago, Kaká brilhou mais que Ronaldo e Luís Fabiano foi... Luís Fabiano. Tudo somado, o Brasil foi melhor que Portugal. Ponto final na discussão. Teve mais discernimento, coesão, pragmatismo. Por isso goleou (6-2). Por isso e porque o talento parece ser uma fonte de energia renovável no outro lado do Atlântico.

Carlos Queiroz surpreendeu ao escalar um meio-campo demasiado mole (com Tiago, Maniche e Deco), mas também ao experimentar Danny no eixo do tridente ofensivo (Ronaldo mais descaído sobre a esquerda, Simão colado à direita). Se a segunda aposta deu frutos, ainda que casuais, quando o extremo do Zenit desviou com êxito um remate de Bruno Alves (5’), já a primeira convidou o adversário a aventuras ofensivas.

Sim, Portugal marcou primeiro. Deco cruzou após um canto cobrado à maneira curta, Bruno Alves tentou o remate e encontrou Danny já dentro da pequena área. De costas, ajeitou subtilmente a bola e inaugurou o marcador. Bom prenúncio? A resposta viria quatro minutos mais tarde. Bosingwa e Pepe abriram um fosso monumental no lado direito da defesa, Robinho agradeceu. Com pés de veludo (e técnica refinada), acelerou, rompeu e inventou um frente-a-frente entre Luís Fabiano e Quim. O antigo avançado do FC Porto levou a melhor.

O gigante tinha acordado. E percebido que os flancos eram terreno fértil. Não tardou até que Kaká tentasse novamente a sorte pela esquerda: passe como só ele sabe a rasgar para o interior da área, pontapé colocado de Robinho e o poste ali tão perto. Por esta altura, a diferença de rendimento entre as duas selecções era já demasiado evidente. Portugal não controlava o meio-campo e o Brasil aproveitava as transições ofensivas para se abrir como um leque no ataque.

Foi assim que chegou ao 2-1. Bola lançada para a ala direita e talvez fosse mais um lance sem história se não tivesse ido parar aos pés de Kaká. O astro do Milan entrou na área e, entre as pernas de dois adversários, encontrou o buraco da agulha para solicitar Fabiano. Recepção de pé direito com Pepe nas costas, remate à meia-volta de esquerdo. Eficácia e classe num gesto só.

Até ao intervalo, ainda houve tempo para duas arrancadas-relâmpago de Anderson, um erro de Bruno Alves e um remate por cima de Kaká após assistência de Robinho. 2-1 no final da primeira parte era um mau resultado para os portugueses? Os segundos 45 minutos provaram que não, que a segunda metade da “sessão” seria ainda mais assustadora.

Nos balneários, Queiroz percebeu o óbvio: que Tiago nunca poderia fazer de Raul Meireles (ou Fernando Meira, também ele no banco) e que o meio-campo pedia consistência com a mesma sofreguidão que uma planta pede água. Entrou o médio do FC Porto e as operações prometiam maior acerto, até porque a velocidade de Nani arriscava fazer tremer a defesa canarinha. O problema voltou a ser um dos flancos. O que estava a cargo de Paulo Ferreira, desta vez. Tabela perfeita já no interior da área: Robinho-Kaká-Fabiano e Maicon a provar por que razão merece a confiança de José Mourinho no Inter. Pontapé forte que deixou Quim a perguntar-se como foi possível a bola entrar entre o seu braço esquerdo e o poste.

O Brasil trocava a bola com o à vontade de quem joga no recreio da escola. E foi com essa descontracção que chegou ao 4-1. Maicon novamente em destaque, a cruzar para o interior da área, Robinho a rodar sobre si próprio (e os centrais portugueses a verem jogar) e Fabiano, sempre ele, a aproveitar as migalhas da defesa à queima-roupa de Quim. Decorriam 58’ e Portugal recordava a goleada de 1989, quando perdeu por 4-0 no Rio de Janeiro.

Os números já pesavam no marcador e o golo de Simão, aos 62’, prometeu transformar uma potencial noite de humilhação numa simples derrota. Triangulação Meireles-Deco-Simão e remate cruzado do extremo do Atlético de Madrid já no interior da área. O lance foi bem desenhado, mas insuficiente para repor os níveis mínimos do orgulho nacional. Até porque, três minutos mais tarde, a equipa de Dunga provava que sabia aliar a estética ao pragmatismo. A bola chegou a Elano à entrada da área portuguesa, sobre o lado direito do ataque canarinho, e o médio transformou (mais) uma possível jogada colectiva num golo de eleição: pontapé seco, cruzado e colocado, fora do alcance de Quim.

Por esta altura, só as substituições em catadupa conseguiam rivalizar com a maré de golos brasileira. Ganhava-se em clima de festa o que se perdia em identidade. E o Brasil até deste carrossel conseguiu tirar partido: bola bombeada para a área (onde é que já vimos este filme?), Bruno Alves completamente desorientado e Adriano nas alturas, de cabeça, a fechar a contagem. E a obrigar Portugal a ir ao baú de (más) memórias desenterrar esse jogo de 1955, com a Suécia, em que tinha sofrido seis golos pela última vez.



Brasil 6-Portugal 2

Ficha de jogo
Estádio Walmir Campelo Bezerra, em Gama
Assistência 20.000 espectadores

Portugal Quim; Bosingwa, Pepe, Bruno Alves, Paulo Ferreira; Tiago (Raul Meireles, 45’), Maniche (César Peixoto, 84'), Deco (Moutinho, 67’); Danny (Nani, 45’), Simão (Hugo Almeida, 76’) e Ronaldo

Brasil Júlio César; Maicon (Daniel Alves, 79’), Luisão, Thiago Silva, Kléber (Marcelo, 82’); Gilberto Silva, Elano (Mancini, 76’), Anderson (Josué, 80’), Kaká; Luís Fabiano (Adriano, 67’) e Robinho (Alex, 82’).

Árbitro Jorge Larrionda, do Uruguai.
Amarelos Danny (20’), Elano (59’), Ronaldo (84’), Marcelo (84’).
Golos 0-1, por Danny, aos 5’; 1-1, por Luís Fabiano, aos 9’; 2-1, por Luís Fabiano, aos 25’; 3-1, por Maicon, aos 56; 4-1, por Luís Fabiano, aos 58; 4-2, por Simão, aos 62’; 5-2, por Elano, aos 65’; 6-2, por Adriano, aos 90’.

 

 

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